As hepatites virais continuam sendo um importante desafio para a saúde pública e, muitas vezes, avançam de forma silenciosa, sem provocar qualquer sinal de alerta. Justamente por essa característica, milhares de brasileiros convivem com a infecção sem saber. Durante o Julho Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção, testagem e tratamento das hepatites virais, especialistas reforçam a importância do diagnóstico precoce, que pode evitar complicações graves e aumentar significativamente as chances de sucesso no tratamento.
De acordo com o mais recente Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, divulgado essa semana, entre 2000 e 2025 foram confirmados 863.097 casos de hepatites virais no Brasil. Desse total, a hepatite C respondeu pela maior parcela dos registros, com 361.419 casos (41,9%), seguida pela hepatite B, com 315.074 casos (36,5%), hepatite A, com 179.789 casos (20,8%), hepatite D, com 4.831 casos (0,6%), e hepatite E, com 1.984 casos (0,2%). No mesmo período, o país registrou 98.941 óbitos relacionados às hepatites virais, sendo a hepatite C responsável por 75,1% das mortes, consolidando-se como a forma mais letal da doença no Brasil. Os dados também evidenciam diferenças regionais importantes, com predominância da hepatite C nas regiões Sudeste e Sul e da hepatite D na Região Norte, reforçando a necessidade de ampliar a prevenção, a testagem e o diagnóstico precoce em todo o país.
As hepatites B e C estão entre as formas mais preocupantes da doença porque costumam evoluir lentamente. A inflamação do fígado pode permanecer ativa durante anos sem causar sintomas, fazendo com que muitos pacientes só descubram a infecção quando o órgão já apresenta danos importantes.
De acordo com a médica Gastroenterologista e Hepatologista do Hospital Márcio Cunha (HMC), Dra. Nicoly Eudes, esse comportamento silencioso é o principal desafio no combate às hepatites virais. Segundo ela, na maioria das vezes o paciente não sente qualquer alteração ao longo da evolução da doença e procura atendimento apenas quando surgem complicações. “Há uma inflamação lenta e progressiva do fígado e muitas vezes os pacientes só manifestam a doença quando já apresentam complicações, como câncer de fígado, cirrose descompensada, vômitos ou fezes com sangue. Por isso, as hepatites B e C são consideradas doenças silenciosas”, explica.
A falta de sintomas faz com que muitas pessoas permaneçam infectadas durante anos, aumentando o risco de evolução da doença e de transmissão do vírus. Por isso, a testagem é considerada uma das principais ferramentas para mudar esse cenário. O exame é rápido, simples e gratuito, disponível nas unidades básicas de saúde.
Segundo a especialista, o teste é realizado por meio de uma pequena gota de sangue retirada da ponta do dedo e o resultado fica pronto em cerca de 30 minutos. “É um exame simples, que não exige coleta convencional de sangue e permite identificar precocemente as pessoas infectadas. Isso possibilita iniciar o tratamento antes do aparecimento das complicações e evita que o vírus continue sendo transmitido para outras pessoas”, relata.
Atualmente, a recomendação é que toda a população adulta realize os testes para hepatites virais pelo menos uma vez na vida. No entanto, alguns grupos devem ter atenção redobrada, como pessoas que receberam transfusão de sangue ou transplante antes de 1990, usuários de drogas injetáveis, profissionais de saúde, gestantes, pessoas que vivem com HIV ou outras infecções sexualmente transmissíveis, pacientes em hemodiálise, pessoas privadas de liberdade, parceiros sexuais de portadores das hepatites virais e indivíduos com múltiplos parceiros sexuais.
Quando o diagnóstico acontece apenas em estágios avançados, as consequências podem ser graves. Nicoly Eudes explica que, nessa fase, muitos pacientes já apresentam cirrose, câncer de fígado, ascite, conhecida popularmente como barriga d’água, ou hemorragias digestivas provocadas por varizes gástricas. Nessas situações, o tratamento torna-se mais complexo e, em alguns casos, pode haver necessidade de transplante de fígado. “O diagnóstico precoce muda completamente o prognóstico da doença”, ressalta.
Embora tenham características semelhantes, as hepatites B e C apresentam diferenças importantes na forma de transmissão. A hepatite B ocorre principalmente por relações sexuais desprotegidas, além do contato com sangue contaminado e da transmissão da mãe para o bebê durante o parto, quando não são adotadas medidas preventivas. Já a hepatite C é transmitida, principalmente, pelo contato com sangue contaminado, seja pelo compartilhamento de seringas, materiais perfurocortantes ou instrumentos sem esterilização adequada. A transmissão sexual é menos frequente e costuma estar associada à presença de sangue durante a relação.
A profissional do HMC conta que os avanços da medicina também mudaram a realidade dos pacientes diagnosticados precocemente. “Atualmente, a hepatite C apresenta índices de cura superiores a 95% graças aos antivirais disponíveis. Já a hepatite B, embora ainda não tenha cura definitiva na maioria dos casos, pode ser controlada de forma eficaz com medicamentos que reduzem significativamente o risco de evolução para cirrose, câncer de fígado e outras complicações”, relata Dra. Nicoly Eudes.
A hepatologista reforça que a prevenção continua sendo uma das estratégias mais importantes no enfrentamento das hepatites virais. Além da realização dos testes, é fundamental manter a vacinação em dia. Existem vacinas disponíveis para as hepatites A e B pelo Sistema Único de Saúde, enquanto para a hepatite C ainda não há imunizante.
Como mensagem neste Julho Amarelo, Nicoly Eudes faz um apelo para que a população aproveite a facilidade de acesso aos testes e à vacinação. “Quem nunca realizou os testes para hepatites virais deve fazer pelo menos uma vez na vida. Essas doenças são silenciosas e descobrir apenas quando aparecem os sintomas pode ser tarde demais. O diagnóstico precoce permite tratamento eficaz e altas chances de cura, especialmente para a hepatite C. Também é importante verificar se a vacinação contra a hepatite B está em dia e esclarecer qualquer dúvida com o médico”, pontua a médica.
A combinação entre informação, prevenção, vacinação e diagnóstico precoce continua sendo a principal aliada para reduzir os casos de hepatites virais e evitar que uma doença silenciosa comprometa a saúde do fígado e a qualidade de vida de milhares de pessoas. Além disso, especialistas reforçam a importância da vacinação como medida de proteção, especialmente contra as hepatites A e B, contribuindo para o controle e a prevenção da doença.
